A crise no sector do ambiente não é de hoje, mas as sucessivas reviravoltas operadas em matéria de política ajudaram a cavar o enorme fosso em que se encontra. São já poucas as empresas que parecem determinados a ficar de olho nos magros negócios que vão surgindo, sobretudo no sector da água.
Espera-se e desespera-se no mercado do ambiente. Os negócios praticamente não existem. As empresas acumulam custos e despesas. A esperança que alguns empresários guardavam fruto das promessas governamentais foi agora suplantada pelo descrédito.
O cenário podia não ser tão negro se se reportasse apenas à actual instabilidade política causada pela dissolução da Assembleia da República e convocação de eleições antecipadas para 20 de Fevereiro. O problema é que a crise no mercado do ambiente conta já pelo menos três anos, desde que a Águas de Portugal começou a pressionar o sector com a criação de múltiplas empresas e a diversificação de áreas de negócio.
A viragem na direcção política que o País tomou em Maio de 2002 anunciava uma lufada de ar fresco. Mas se as promessas do Governo PSD/CDS prenunciavam um futuro mais risonho, rapidamente a realidade veio a demonstrar o contrário com as sucessivas mudanças de caras na tutela do ambiente. Basta reparar que em dois anos e meio o Ministério do Ambiente teve quatro ministros, nove secretários de Estado e uma série de medidas estudadas e reestudadas que acabaram por não sair do papel.
«Os últimos três anos foram de uma instabilidade confrangedora. Nada se fez, nada se decidiu contrariamente ao que foi prometido. E isso é uma frustração completa para as entidades privadas», confessa Pedro Falcão e Cunha, administrador da AGS, empresa do grupo Somague vocacionada para a gestão, operação e manutenção de infra-estruturas de águas e de águas residuais.
Como se não bastasse o histórico, a verdade é que até à tomada de posse do novo governo, atribuição de pastas e familiarização dos dossiers, o País bem pode esperar por decisões até ao Verão de 2005, ou melhor, até depois das férias. «Já estava mau, agora piorou. O panorama é mesmo assustador, até porque também se deve contar com as eleições autárquicas que deverão condicionar o lançamento de concursos públicos de concessões ou de prestação de serviços, ou seja, a actividade dos privados», continua.
Ângelo Correia, administrador da Fomentinvest, empresa que recentemente se lançou no mercado do ambiente, salienta que «tem sido visível que os partidos não têm política de ambiente pois esta é feita por cada um dos ministros que vai ocupando a pasta. E isso é negativo. O ambiente tem de ser uma política de governo e não apenas uma peça de discussão interna dos partidos».
In Agua&Ambiente (texto integral na edição impressa – Janeiro 2005)










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